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26 . 10 . 2018

A Resistência à Insulina na
Doença de Alzheimer

A doença de Alzheimer é uma patologia degenerativa do sistema nervoso central, que conduz a défices importantes da memória e outras funções cognitivas. No mundo industrializado, a prevalência desta doença tem vindo a aumentar e novas formas de a prevenir estão a ser investigadas.

Existe uma predisposição genética para a doença de Alzheimer, com maior relevo para certos polimorfismos do gene da Apolipoproteína E (APOE4 confere maior risco). Contudo, na grande maioria dos casos, os factores extra-genéticos, nomeadamente a dieta, o estilo de vida e interacção com o meio circundante são determinantes para o desenvolvimento da doença. Aliás, este principio aplica-se à quase totalidade das doenças crónicas que nos afectam.

A lesão característica presente no cérebro destes pacientes é a deposição de placas de beta-amilóide, que são aglomerados de proteínas com um elevado potencial inflamatório. Recentemente, foi descoberta uma relação bidireccional entre os depósitos de beta-amilóide e a resistência à insulina.

 

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Fig. 1 – PET scan com marcador especial para identificar as placas de amilóide no cérebro de pacientes com doença de Alzheimer.

 

O que é a resistência à insulina?

A insulina é uma hormona produzida pelo pâncreas, em resposta à ingestão de hidratos de carbono e/ou proteínas. O aumento da concentração de insulina no sangue é o sinal para que as células de vários tecidos (músculo, tecido adiposo, etc.) retirem a glicose de circulação e a utilizem para o seu funcionamento metabólico. Por resistência à insulina, entende-se uma menor resposta das células aos níveis desta hormona, conduzindo a um aumento da concentração de glicose no sangue e consequente necessidade de maior produção pancreática de insulina para atingir o mesmo efeito. Este ciclo leva a distúrbios como a diabetes mellitus tipo 2 e o síndrome metabólico.

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Fig. 2 – Etiologia multifactorial da resistência à insulina.

 

Qual é a importância da insulina no cérebro?

A insulina desempenha um papel fundamental no cérebro, especialmente a nível do hipocampo, uma área muito activa do ponto de vista metabólico. O hipocampo é o centro de integração de novas memórias do cérebro, sendo uma zona particularmente afectada na doença de Alzheimer.

Qual é a relação entre a resistência à insulina e as placas de beta-amilóide?

Existe uma sinergia entre estes mecanismos, que se promovem segundo os seguintes princípios:

  • o beta-amilóide induz a remoção dos receptores de insulina da superfície das células, o que gera maior resistência à insulina.
  • a resistência à insulina e consequente hiperinsulinémia inibem os mecanismos de limpeza de beta-amilóide, levando à acumulação do mesmo.
  • a deposição de beta-amilóide gera neuroinflamação, que por sua vez potencia a resistência à insulina no sistema nervoso central.

Os pacientes com diabetes mellitus tipo 2 têm um risco de contrair doença de Alzheimer até 65% superior à restante população. Este facto ilustra bem a importância da resistência à insulina na fisiopatologia desta doença.

Este tema é mais um exemplo da integração dos diferentes sistemas de órgãos, em contraste com uma abordagem compartimentalizada. Como se viu, a doença de Alzheimer não é, exclusivamente, um problema do cérebro, sendo influenciada pela orquestra de mediadores neuro-hormonais em funcionamento no nosso corpo, de forma contínua. Tendo conhecimento destas interacções, podemos optimizar o nosso estilo de vida, de forma a prevenir esta e outras doenças.

 

Referências:

Dineley K, Jahrling J, Denner L. Insulin Resistance in Alzheimer’s Disease. Neurobiology of Disease. 2015;72:92-103.

Categorias: Demência, Metabolismo

02 Comments

Muito bom, tira um pouco o véu sobre a doença de Alzheimer. Um esclarecimento com um texto simples e uma ajuda no conhecimento das boas práticas, para prevenir a doença.

Obrigado. Todos nós podemos fazer escolhas no nosso dia a dia que nos afastam da doença.

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