MENU

Blog.

15 . 02 . 2019

O Perigo Escondido das Micotoxinas

O potencial patogénico das micotoxinas (toxinas produzidas por fungos) começa a ser reconhecido na literatura científica, justificando um maior grau de alerta, especialmente nos pacientes com doenças crónicas de origem, por vezes, desconhecida.

O bolor é frequentemente encarado como uma substância inerte, apenas com implicações estéticas. Contudo, na realidade, o bolor representa populações de fungos que, consoante a sua espécie, produzem toxinas para se defenderem do meio circundante. Inclusivamente, está há muito documentado o potencial cancerígeno das aflatoxinas (micotoxinas produzidas por fungos do género Aspergillus) quando ingeridas, em alimentos contaminados. Mas o perigo das micotoxinas vai além da ingestão directa.

Como podem as micotoxinas causar problemas?

As micotoxinas podem causar danos consideráveis no organismo humano, sendo as ocratoxinas, aflatoxinas, tricotecenos e gliotoxinas, as mais patogénicas. É uma questão de dose, via de exposição, mas também de susceptibilidade genética. Segundo o trabalho do Dr. Richie Shoemaker, pioneiro neste campo, nos EUA, estima-se que cerca de 25% da população tenha determinados tipos de HLA (antigénio leucocitário humano) que os torna especialmente vulneráveis às micotoxinas. Os genes do sistema HLA codificam proteínas que reconhecem antigénios e os apresentam ao sistema imunitário, permitindo uma reacção e, consequente, remoção dos ditos antigénios da circulação. Os indivíduos geneticamente susceptíveis, têm uma menor capacidade de reconhecimento de micotoxinas, permitindo a sua acumulação no organismo, onde exercem toxicidade celular directa e incitam uma resposta em cascata de citoquinas inflamatórias.

 

Fig. 1 – A via inalatória é a principal porta de entrada das micotoxinas no organismo.

 

Quais são os sintomas decorrentes da exposição?

Os sintomas podem ser pouco específicos e afectar múltiplos sistemas de órgãos, destacando-se os seguintes:

Sintomas respiratórios – decorrentes da inalação de micotoxinas. Manifestações de hiperreactividade das vias aéreas, como a asma, rinite, sinusite e tosse crónica, são comuns na sensibilidade ao bolor. Esta não é uma reacção alérgica mediada por IgE’s (as imunoglobulinas normalmente associadas a alergias respiratórias) e não é passível de ser diagnosticada com testes de alergias comuns.

Sintomas neurológicos – tonturas, dores de cabeça, fotofobia (sensibilidade à luz), visão turva, entre outros. Estas manifestações resultam da inflamação a nível do sistema nervoso central.

Sintomas cognitivos – perda de memória, confusão, défices cognitivos. Um estudo polaco, documentou uma diminuição de 10 pontos de QI, em média, num grupo de crianças expostas a micotoxinas num período superior a 2 anos, quando comparado com crianças sem exposição.

Sintomas músculo-esqueléticos – dores musculares, articulares e fadiga extrema. Estas são manifestações semelhantes à fibromialgia e síndrome da fadiga crónica, e decorrem da resposta inflamatória sistémica com libertação de citoquinas, como o TGF-β1. Um estudo em 112 pacientes com síndrome da fadiga crónica demonstrou a presença de micotoxinas na urina de 104 dos pacientes, em contraste com a ausência de resultados positivos nas 55 pessoas assintomáticas do grupo de controlo.

Sintomas gastrointestinais – dores abdominais, intolerância alimentares, diarreia, etc. Existe até um caso na literatura médica que descreve um caso de colite ulcerosa refractária à terapêutica que entrou em remissão após remoção da exposição ao bolor e adequada remoção de micotoxinas do organismo.

Como se pode fazer o diagnóstico?

Esta é uma entidade relativamente recente e ainda não existem guidelines específicas para o diagnóstico. Contudo, os seguintes factores devem ser tidos em consideração quando existe suspeita desta entidade:

1. Evidência de exposição a micotoxinas – mesmo quando o bolor não é visível a olho nu, são necessários testes especificos para detectar a presença de micotoxinas e esporos fúngicos no ar.

2. Sintomatologia consistente com a patologia – existem questionários validados que ajudam a guiar o diagnóstico.

3. Identificação de uma predisposição genética no sistema HLA – HLA-DR e DQ.

4. Presença de toxicidade neurológica – o teste de sensibilidade de contraste visual (VCS) é uma forma simples de identificar lesão neuronal por micotoxinas. Este é um teste que se pode fazer online e tem uma sensibilidade de cerca de 90% na detecção de exposição a micotoxinas. A teoria é de que as micotoxinas produzem lesão a nível do nervo óptico e diminuem a capacidade de discernir contrastes visuais.

5. Biomarcadores decorrentes da activação de uma cascata inflamatória no organismo – marcadores como o TGF-β1, MMP-9, MSH, C4a, VIP, ADH e VEGF podem estar alterados e a sua determinação é útil no diagnóstico e monitorização da terapêutica.

Fig. 2 – Exemplo de resultado de um teste à sensibilidade de contraste visual.

 

Como se trata esta condição?

O tratamento pode ser bastante complicado nestes pacientes, já que o seu sistema imunitário está altamente reactivo e a mobilização de toxinas pode piorar os sintomas.

O passo inicial é a remoção imediata da exposição, o que implica um processo de remediação bastante meticuloso. Até lá o paciente deve evitar completamente ambientes com bolor.

Infelizmente, a remoção do antigénio não é suficiente para alguns pacientes, pois as micotoxinas já estão alojadas no organismos, sendo necessário um processo de desintoxicação. Com tal intuito, são utilizadas substâncias com a capacidade de se ligar às toxinas e promover a sua excreção, como por exemplo a colestiramina. Em paralelo, é necessário fortalecer o organismo com recurso a nutrientes específicos e antioxidantes.

A sensibilidade às micotoxinas é uma entidade real que pode ter efeitos devastadores na vida dos indivíduos geneticamente susceptíveis. Numa era em que o estudo do genoma é cada vez mais aprofundado, convém reconhecer que todos temos uma matriz própria e alguns de nós exibimos certas “fraquezas”. É importante não ignorar a possibilidade de exposição a substâncias tóxicas no ambiente e incorporá-las num modelo de medicina individualizada.

 

Referências:

1. Hope J. A Review of the Mechanism of Injury and Treatment Approaches for Illness Resulting from Exposure to Water-Damaged Buildings, Mold, and Mycotoxins. The Scientific World Journal. 2013; 2013:6-10.

2. Gunn SR, Mueller FW. Reversal of Refractory Ulcerative Colitis and Severe Chronic Fatigue Syndrome Symptoms Arising from Immune Disturbance in an HLA- DR / DQ Genetically Susceptible Individual with Multiple Biotoxin Exposures. American Journal of Case Reports 2016:320-325.

3. Brewer J, Thrasher J, Hooper D. Detection of Mycotoxins in Patients with Chronic Fatigue Syndrome. Toxins 2013:605-617.

4. Shoemaker, R. (2011). The Biotoxin Pathway. Retrieved from www.survivingmold.com

 

DEIXE UMA RESPOSTA