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19 . 07 . 2019

Helicobacter pylori e Doença Autoimune da Tiróide - existe associação?

A tiróide é o orgão mais frequentemente afectado por doença autoimune. Apesar de a sua etiologia ser multifactorial, existe evidência de que alguns agentes infecciosos, entre eles a Helicobacter pylori, possam contribuir para a autoimunidade.

A Helicobacter pylori (Hp) é uma bactéria Gram negativa que tem a capacidade de colonizar e infectar a mucosa gástrica. Esta infecção é bastante comum, estando presente em cerca de metade da população mundial. As consequências locais da infecção por Hp são a gastrite, a úlcera péptica e o carcinoma gástrico. Contudo, algumas manifestações extra-gástricas como a púrpura trombocitopénica idiopática (doença caracterizada por destruição autoimune de plaquetas sanguíneas) e, até, a doença coronária aterosclerótica têm sido associadas à presença de Hp, na literatura médica.

Quais são as doenças autoimunes da tiróide?

As doenças autoimunes da glândula tiroideia são muito comuns, estimando-se que a sua prevalência na população atinja os 5%, sendo as mulheres mais afectadas que os homens. Estas patologias são caracterizadas pela presença de anticorpos dirigidos contra o tecido tiroideu e infiltrados linfocitários na glândula. Esta reacção imunitária vai levando à destruição progressiva da glândula, podendo culminar em alterações funcionais (hipo ou hipertiroidismo). As duas principais doenças autoimunes da tiróide são as seguintes:

  • Tiroidite de Hashimoto – geralmente há presença de anticorpos dirigidos contra a tiroglobulina (Anti-Tg) e tiroperoxidase (Anti-TPO). Devido à destruição progressiva da glândula, a tiroidite de Hashimoto conduz, frequentemente, ao hipotiroidismo.
  • Doença de Graves – a presença de anticorpos específicos para os receptores da TSH (TRAb’s) promove uma hiperestimulação da glândula, o que desencadeia um quadro de hipertiroidismo.

O que provoca estas doenças?

Tal como noutras doenças autoimunes, a causa não é evidente. Existe uma combinação de factores ambientais que, aliados a uma susceptibilidade genética, podem desencadear um processo autoimune. A exposição a certas drogas, iodo, tabagismo e stress, contribui para o desenvolvimento da doença autoimune da tiróide. A presença de certas infecções virais e bacterianas, como a Hepatite C, vírus Coxsackie, Yersinia enterocolitica, Borrelia burgdorferi e a Helicobacter pylori, também têm sido propostos como possíveis agentes promotores de autoimunidade.

Como pode uma infecção promover a autoimunidade?

Os agentes infecciosos desencadeiam respostas por parte do sistema imunitário, que visa o seu controlo e/ou erradicação. Este processo é dinâmico e mais complexo do que possa parecer. Os microorganismos podem “confundir” o nosso sistema imunitário, levando-o a reagir contra moléculas e tecidos do próprio organismo. Existem vários mecanismos que podem explicar este fenómeno, como o mimetismo molecular (moléculas semelhantes entre o microorganismo e o hospedeiro), a modificação de antigénios do hospedeiro devido à interacção com o agente infeccioso, e a estimulação excessiva de células imunitárias.

Existe uma associação entre a infecção por Helicobacter pylori e a doença autoimune da tiróide?

Nos últimos 20 anos, múltiplos estudos têm tentado responder a esta questão, com resultados díspares. Uma meta-análise publicada em 2017, englobou 15 estudos (um total de 3046 pacientes) e encontrou uma associação positiva entre a infecção por Hp e a doença autoimune da tiróide (OR-2.25, o que significa que uma pessoa infectada, tem um risco 2.25 vezes superior de desenvolver doença autoimune da tiróide). Esta associação foi mais significativa na doença de Graves (OR-2.78) do que na tiroidite de Hashimoto (OR-2.16).

Fig. 1 – A Helicobacter pylori é uma bactéria Gram-negativa que infecta a mucosa do estômago.

 

Como pode esta provável associação influenciar a prática clínica?

No caso da doença autoimune da tiróide, o tratamento convencional assenta na reposição dos níveis de hormona tiroideia quando há hipotiroidismo (Hashimoto), ou na supressão da produção endógena da mesma quando há hipertiroidismo (Doença de Graves).

Contudo, em paralelo, é importante procurar e corrigir potenciais factores que possam contribuir para a autoimunidade. A associação entre a infecção por Hp e a doença autoimune da tiróide é sugerida na literatura e existe, pelo menos, um estudo que reporta uma diminuição significativa de anticorpos anti-tiroideus após a erradicação da Hp. Este é um pequeno estudo, com apenas 10 doentes, mas levanta uma importante questão para o clínico: Será a erradicação de Hp indicada nos doentes com doença autoimune da tiróide?

As doenças autoimunes são complexas e é importante ter uma visão abrangente dos diferentes factores que podem contribuir para o seu aparecimento. Nesta categoria, incluem-se certas infecções, como a Helicobacter pylori.

Referências:

Hou Y, Sun W, Zhang C, et al. Meta-analysis of the correlation between Helicobacter pylori infection and autoimmune thyroid diseases. Oncotarget. 2017;8(70):115691–115700.

Köhling HL, Plummer SF, Marchesi JR, et al. The microbiota and autoimmunity:Their role in thyroid autoimmune diseases. Clinical Immunology. 2017;183:63-74.

Shmuely H, Shimon I, Gitter LA. Helicobacter pylori infection in women with Hashimoto thyroiditis: A case-control study. Medicine (Baltimore). 2016;95(29):e4074.

Bertalot G, Montresor G, Tampieri M, et al. Decrease in thyroid autoantibodies after eradication of Helicobacter pylori infection. Clinical Endocrinology (Oxf). 2004;61(5):650-652.

Categorias: Autoimunidade, Microbioma

05 Comments

Tenho interesse

Boa tarde.
Tenho lido alguns artigos sobre a naltrexone.
Concorda com algumas afirmações descritas em baixo? Obrigado desde já.

LDN – Uma das maiores descobertas do século XX
(low dose naltrexone)

LDN – Uma das maiores descobertas do século

O LDN é uma grande promessa para milhões de pessoas no mundo que possuem doenças autoimunes e distúrbios do sistema nervoso central ou que enfrentam um câncer mortal.

Olá Miguel.
De facto, a naltrexona em dose baixa tem um efeito imunomodulador e pode ser útil no tratamento de doenças autoimunes, bem como na dor crónica. Funciona muito bem em alguns pacientes.
Contudo, não creio que seja uma panaceia, nem a maior descoberta do século. É mais uma ferramenta que pode ser utilizada numa abordagem integrativa.

Bom dia dr.daniel , o que me fala sobre a dieta cetogenica? Tds podem e deve fazer?

Olá Matilde,
A dieta cetogénica não é para toda a gente. Depende dos objectivos da pessoa e dos seus marcadores metabólicos. É muito útil na perda de peso e reversão da síndrome metabólica mas deve ser acompanhada de perto por um profissional com experiência no seu uso.

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