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18 . 09 . 2020

Stress Crónico - Quando as reservas se esgotam

Por stress, entende-se qualquer estímulo (físico ou psicológico) que provoca tensão no corpo e uma necessidade de adaptação. Existem formas de stress “positivo”, como o exercício, por exemplo, e outras “negativas”, como a privação de sono ou problemas no trabalho. O nosso corpo dispõe de um sistema de resposta e adaptação ao stress, que visa a reposição do equilíbrio. Neste artigo, veremos o que pode acontecer se esse sistema é sujeito a uma carga excessiva.

As estruturas responsáveis pela resposta ao stress são o hipotálamo, a hipófise (ou pituitária) e as glândulas supra-renais. O hipotálamo e a hipófise estão localizados na base do cérebro e funcionam, em conjunto, como os maestros da regulação hormonal no corpo. As supra-renais são duas glândulas especializadas, situadas acima dos rins, que produzem, mediante “ordem” da hipófise, as hormonas e neurotransmissores responsáveis por promover as adaptações fisiológicas necessárias para repor o equilíbrio. Este sistema é designado por eixo Hipotálamo-Pituitário-Adrenal (HPA).

Fig.1 – Componentes do eixo HPA e a sua comunicação.

 

Qual é a resposta normal ao stress?

Quando um estímulo é percebido como um agente de stress, o hipotálamo desencadeia uma cascata de sinais que conduz a dois tipos de resposta:

  • resposta aguda e limitada – mediada por catecolaminas (adrenalina e noradrenalina). Estas substâncias são libertadas em segundos e provocam um aumento da frequência cardíaca e pressão arterial, entre outros efeitos. É esta resposta aguda que nos pode salvar a vida, em caso de acidente e hemorragia, por exemplo.
  • resposta tardia e prolongada – mediada pelo cortisol (hormona esteróide produzida na supra-renal). O cortisol prepara o corpo para uma resposta mais prolongada ao stress, ao assegurar níveis de glucose adequados e suprimindo a resposta inflamatória, por exemplo.

Numa situação ideal, o stress é resolvido e estas respostas são terminadas.

Como são controlados os níveis de cortisol?

Todas as substâncias fundamentais para o funcionamento do corpo são sujeitas a um rigoroso controlo. O cortisol não é excepção e obedece a um ritmo circadiano. A secreção de cortisol é máxima cerca de 30-45 minutos após o despertar, fruto da estimulação do hipotálamo pela luz natural. Este pico matinal de cortisol é fundamental para que tenhamos energia para começar o dia. Daí em diante, os níveis vão diminuindo e devem ser baixos à noite, para permitir o sono. Quando os níveis de cortisol são muito altos, o hipotálamo, através dos seus sensores, detecta esta situação e diminui a sinalização para a produção da hormona (mecanismo de feedback negativo).

Fig. 2 – Níveis médios de cortisol salivar, calculados a partir da compilação de 15 estudos diferentes, com uma amostra total de 18,698 indivíduos (2).

 

O que acontece quando o stress é crónico?

Quando não existe resolução do stress (seja ele psicológico ou físico), vai haver uma constante pressão no eixo HPA, no sentido da produção de cortisol. Inicialmente, isso resulta numa produção aumentada de cortisol. Contudo, com o tempo, pode-se instalar um quadro de hipocortisolismo, em que o corpo activa uma série de mecanismos para diminuir os níveis de cortisol e assim se auto-proteger dos seus efeitos deletérios. Importa relembrar que o cortisol é uma hormona catabólica, que promove a degradação de tecidos como o músculo e o osso, privilegiando outras funções mais importantes para a sobrevivência. Como tal, níveis continuamente altos desta hormona representam um risco metabólico.

Fig. 3 – Os diferentes estadios da resposta ao stress, descritos por Hans Selye. O período de tempo que demora até se instalar uma situação de exaustão depende de indivíduo para indivíduo, de acordo com a capacidade de resiliência metabólica de cada um.

 

Quais são os sintomas do hipocortisolismo?

Quando o eixo HPA é suprimido e os níveis de cortisol diminuem, estamos perante uma situação de “burnout” ou esgotamento. Os sintomas mais comuns são: fadiga extrema, fraqueza muscular, dores difusas, depressão, irritabilidade e dificuldades de concentração. Importa distinguir este estado de hipocortisolismo da doença de Addison, em que há uma destruição autoimune da glândula supra-renal, e consequente diminuição dos níveis de cortisol. Na disfunção do eixo HPA devido ao stress crónico, o problema não reside nas glândulas supra-renais, mas no mecanismo de regulação comandado pelo hipotálamo e hipófise.

Como se pode evitar uma situação de “burnout”?

Para responder a esta questão, utilizaremos os quatro principais potenciadores do eixo HPA, realçando, de forma simplicada, o que pode ser feito em cada uma das categorias para aumentar a nossa capacidade de resiliência ao stress.

1. Percepção do stress – todas as situações stressantes são percepcionadas de forma única por diferentes indivíduos. É importante dispor de ferramentas que nos permitam relativizar o stress e encontrar saídas para situações adversas, se necessário com ajuda de profissionais especializados.

2. Manutenção do ritmo circadiano – a rotina dos ciclos de luz/escuridão são fundamentais para o correcto funcionamento do organismo, incluindo a manutenção de níveis saudáveis de cortisol. O ideal são 7-8 horas de sono, contínuo, algures entre as 21:00 e as 8:00.

3. Controlo da glicémia – o cortisol tem um papel importante na regulação dos níveis de glicémia (açúcar no sangue). Em situações de hipoglicémia, a produção de cortisol é estimulada. Por sua vez, problemas no metabolismo de hidratos de carbono, com hiperinsulinémia, também conduzem a níveis de cortisol elevados. Assim, devemos ter uma alimentação baixa em hidratos de carbono refinados, rica em fibra, gorduras saudáveis e proteína, de forma a estabilizar os níveis de glicémia, o que evita o recrutamento do eixo HPA.

4. Controlo da inflamação – a presença de inflamação crónica promove a secreção de cortisol (devido aos efeitos anti-inflamatórios desta hormona). É importante despistar e controlar eventuais focos de inflamação crónica e silenciosa.

O sistema HPA é uma fascinante evolução da natureza que permite um elegante controlo da resposta ao stress que, actualmente, nos rodeia a todos. Do ponto de vista clínico, muitas doenças têm origem na sobrecarga, e consequente disfunção, deste sistema. Estando alerta para a sintomatologia típica e recorrendo a testes específicos, o clínico pode detectar esta disfunção em fases precoces e ajudar o paciente a restabelecer o equilíbrio.

Referências:

  1. Guilliams, TG. The Role of Stress and the HPA Axis in Chronic Disease Management. Point Institute, 2015.
  2. Miller R, Stalder T, Jarczok M, et al. The CIRCORT database: Reference ranges and seasonal changes in diurnal salivary cortisol derived from a meta-dataset comprised of 15 field studies. Psychoneuroendocrinology. 2016;73:16-23.

 

 

Categorias: Hormonas, Stress

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