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07 . 12 . 2018

O Uso de LDN na Fibromialgia

A fibromialgia é uma doença muito complexa que envolve múltiplos sistemas de órgãos e tem uma prevalência de cerca de 3%, afectando principalmente mulheres. Os sintomas podem ser incapacitantes e incluem os seguintes: dor músculo-esquelética, cansaço crónico, distúrbios cognitivos, cefaleias, parestesias, entre outros.

A causa da fibromialgia é ainda desconhecida. Inicialmente pensou-se que seria um problema das fibras musculares, mas a teoria actualmente aceite é de que se trata de um distúrbio da percepção e processamento de estímulos dolorosos ao nível do sistema nervoso central. Os pacientes com fibromialgia têm, então, uma maior propensão para sentir dor. Não é consensual o envolvimento do sistema imunitário na patogénese da fibromialgia, mas uma percentagem de doentes apresenta sinais de inflamação e desregulação do sistema imunitário.

Na abordagem farmacológica convencional as opções terapêuticas disponíveis para a fibromialgia incluem alguns anti-depressivos, anti-epilépticos e analgésicos. São ainda recomendados planos de exercício individualizados para prevenir a atrofia muscular que pode agravar os sintomas. Contudo, para muitos doentes esta abordagem não se traduz numa melhoria significativa de sintomas.

O que é a naltrexona?

A naltrexona é uma substância da familia da morfina (opióide), descoberta em 1965. A naltrexona actua como antagonista competitivo dos receptores opióides (especialmente os receptores mu). Em doses normais (50-100 mg/dia), o bloqueio destes receptores é completo e a sua activação fica impossibilitada, o que explica a utilidade da naltrexona no tratamento no alcoolismo e dependência de opióides.

Recentemente, a naltrexona em doses baixas (conhecida por LDN – “low dose naltrexone”), tem sido estudada pelas suas propriedades imunomoduladoras, em patologias como a esclerose multiple, a doença inflamatória intestinal e a fibromialgia.

Como funciona a LDN?

Em doses baixas (1-5mg/dia), a naltrexona apenas exerce um bloqueio temporário dos receptores opióides, que resulta no aumento de produção de endorfinas (opióides endógenos), através de um mecanismo de feedback. Ou seja, o organismo interpreta o bloqueio temporário dos receptores opióides como uma diminuição da concentração sanguínea de endorfinas e reage produzindo mais. Esta activação do sistema opióide endógeno tem efeitos benéficos sobre o sistema imunitário e também produz um efeito analgésico.

Outro efeito benéfico da LDN decorre do bloqueio de receptores TLR4 (Toll-like receptor 4) que existem nos astrócitos e micróglia, células do sistema nervoso central. O bloqueio destes receptores conduz à diminuição da produção de citoquinas inflamatórias, como a IL-1 e o TNF-α.

Esta capacidade de modular a resposta imunológica e actuar como um anti-inflamatório a nível do sistema nervoso central, explica a potencial utilidade da LDN na fibromialgia.

Qual é a evidência científica da eficácia da LDN na fibromialgia?

Existem alguns estudos que documentaram um efeito benéfico da LDN nos sintomas de fibromialgia. Podem-se destacar os seguintes:

– estudo randomizado, duplo-cego e controlado com placebo, com uma amostra de 31 pacientes. Após 20 semanas houve uma melhoria significativa da dor, humor e qualidade de vida nos pacientes tratados com LDN, quando comparado com o placebo.

– estudo sem ocultação com 25 doentes que contemplou o uso de LDN durante 12 semanas. No final do estudo, metade dos pacientes apresentaram melhorias dos sintomas (grau de melhoria superior a 40%).

– estudo cego com 8 pacientes (todas mulheres) que receberam LDN durante 8 semanas. No final das 8 semanas houve uma redução de 15% da dor e uma diminuição dos níveis de algumas ciotquiras inflamatórias (IL-1, IL-2, IL-6, IFN-alpha, TNF-α, etc.).

Estes estudos têm amostras bastante pequenas e terão de ser efectuados novos ensaios de maior dimensão, para que se possam tirar conclusões seguras acerca da eficácia da LDN na fibromialgia.

A LDN tem efeitos secundários?

Sim. Apesar de ser muito bem tolerada pela maioria dos pacientes, esta medicação pode ter efeitos secundários, como insónias e alterações gastrointestinais. As insónias tendem a melhorar com o curso da terapêutica.

Independentemente da patologia, a abordagem da medicina funcional consiste em tratar o paciente de uma forma individualizada. Assim, investigam-se os vários sistemas que possam estar a funcionar de forma deficiente e procura-se a sua optimização, reavaliando depois a sintomatologia. No caso específico da fibromialgia, é prestada especial atenção à dieta, estilo de vida, saúde gastrointestinal, equilíbrio hormonal e deficiências da metilação. A LDN pode ser uma ferramenta útil para o alivio sintomático, em conjunto com outros fármacos, mas não deve substituir uma análise profunda e exaustiva ao organismo do paciente com fibromialgia.

 

Referências:

Patten DK, Schultz BG, Berlau DJ. The Safety and Efficacy of Low-Dose Naltrexone in the Management of Chronic Pain and Inflammation in Multiple Sclerosis, Fibromyalgia, Crohn’s Disease, and Other Chronic Pain Disorders. Pharmacotherapy. 2018;38(3):382-389

Metyas S, Chen S, Arkfeld D. Low Dose Naltrexone in the Treatment of Fibromyalgia. Current Rheumatology Reviews (2018) 14: 177.

Parkitny L, Younger J. Reduced Pro-Inflammatory Cytokines after Eight Weeks of Low-Dose Naltrexone for Fibromyalgia. Biomedicines. 2017;5(2):16.

Younger J, Parkitny L, McLain D. The use of low-dose naltrexone (LDN) as a novel anti inflammatory treatment for chronic pain. Clinical Rheumatology 2014, 33, 451–459

04 Comments

Onde comprar LDN 3mg em Portugal? Pode-se comprar sem receita médica?

Olá Celso. A LDN pode ser comprada em farmácias que trabalhem com manipulados. Precisa de receita para ser vendida. Cumprimentos

Ola. Tenho uma intoxicacao opiodes existe algum medicamento de venda livre que seja um antagonostico puro?

Olá Carlos. O que quer dizer por intoxicação a opióides? Geralmente, essa é uma situação bastante grave que requer cuidado específico com administração de antagonistas como a naloxona (sem venda livre).

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