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21 . 03 . 2019

A Variabilidade da Frequência Cardíaca e o Sistema Nervoso Autónomo

A variabilidade da frequência cardíaca (VFC) é um marcador cientificamente validado para aferir o equilíbrio entre o sistema nervoso simpático e o parassimpático, permitindo estudar a sua influência em diversas patologias.

O sistema nervoso autónomo assegura o funcionamento de inúmeros processos necessários à homeostasia, como o controlo da frequência cardíaca, frequência respiratória, secreção de enzimas digestivas, peristalse intestinal, tónus vascular, entre muitos outros. Estas funções são coordenadas, de forma inconsciente, por circuitos neuronais, havendo dois ramos antagónicos:

Sistema nervoso simpático – utiliza catecolaminas como neurotransmissores e é responsável pelo aumento da frequência cardíaca, entre outras funções. O sistema nervoso simpático assegura a sobrevivência em situações de stress agudo.

Sistema nervoso parassimpático – utiliza a acetilcolina como neurotransmissor e a sua função principal é a conservação de energia, a reparação de tecidos e a digestão e absorção de nutrientes. No sistema cardiovascular, a acção do sistema nervoso parassimpático conduz a uma diminuição da frequência cardíaca e pressão arterial.

Como se determina a VFC?

A VFC refere-se à oscilação do intervalo entre cada batimento cardíaco e pode ser medida num electrocardiograma ou através de um sensor de fotopletismografia. O tónus vagal (activação do sistema nervoso parassimpático) confere um certo grau de irregularidade à frequência cardíaca, fruto da sua influência na respiração e, consequentemente, nas pressões de enchimento das câmaras cardíacas – fenómeno conhecido como arritmia sinusal respiratória.

Assim, quanto maior for o tónus vagal, maior será a VFC. Pelo contrário, se o efeito do sistema nervoso simpático se sobrepuser, a variabilidade entre cada batimento cardíaco será mais reduzida.

Fig. 1 – Os intervalos entre cada batimento cardíaco variam e a magnitude dessa variação permite calcular a VFC.

 

Qual é a importância da VFC do ponto de vista clínico?

É ponto assente que o stress físico (exercício em excesso, por exemplo), emocional ou psicológico tem efeitos nocivos na fisiologia humana, através de diversos mecanismos. Tendo em conta que o stress tem uma acção promotora do sistema nervoso simpático, vai afectar indirectamente a VFC. Assim sendo, dispomos de uma variável objectiva que nos permite inferir o estado do sistema nervoso autónomo de um determinado indivíduo e a sua resiliência ao stress.

Existem estudos que comprovem a utilidade clinica da VFC?

Esta é uma área que despertou um grande interesse na comunidade científica, existindo diversos estudos que demonstram o seu potencial enquanto ferramenta de prognóstico. Podemos destacar os seguintes:

– uma meta-análise que inclui 8 estudos e um total de 21 988 indivíduos, documentou um aumento de risco de evento cardiovascular inicial, em pacientes sem história de doença cardíaca conhecida, 32-45% superior para aqueles com VFC mais baixa.

– o “estudo de Roterdão” analisou 5722 pacientes acima dos 55 anos e estratificou a VFC em quartis, estabelecendo, depois, associação com a mortalidade cardíaca. Os indivíduos com a VFC mais baixa (quartil mais baixo) tiveram um risco de mortalidade cardíaca 80% superior aos do terceiro quartil. Por sua vez, aqueles com VFC mais elevada também tiveram risco de mortalidade cardíaca elevado (risco relativo – 2.3). Este estudo sugere que os extremos de VFC podem estar associados a mortalidade cardiovascular, pelo menos na população com mais idade.

– um estudo com 651 pacientes cancerosos, encontrou associação entre valores mais baixos de VFC e menor tempo de sobrevivência.

Que benefícios podemos retirar desta tecnologia?

A VFC é mais uma variável à disposição daqueles que procuram optimizar a sua saúde. Existem diversas aplicações no mercado que permitem registar a VFC diária e estabelecer uma baseline. É possível então identificar um padrão entre certos comportamentos (por exemplo défice de sono ou excesso de exercício físico) e a VFC. Aliás, esta ferramenta é bastante utilizada por atletas de alta competição, que procuram evitar entrar numa situação de overtraining, em que o corpo deixa de dar uma resposta adequada ao estímulo físico.

Esta tecnologia pode também ser utilizada como solução terapêutica, permitindo o biofeedback. Estes aparelhos detectam a VFC e sugerem padrões de respiração que conduzem a um aumento do tónus vagal.

O sistema nervoso autónomo, enquanto maestro da homeostasia humana, tem um efeito preponderante no funcionamento e regeneração dos órgãos. Apesar de ser governado por mecanismos inconscientes, podemos adoptar comportamentos que modulam o output do sistema nervoso autónomo, como diversas técnicas de relaxamento e o exercício aeróbico. O efeito de tais estratégias pode ser seguido e ajustado com recurso à VFC.

 

Referências:

Plews D, Hadley D, Christle JW, et al. Heart Rate Variability: An Old Metric with New Meaning in the Era of Using mHealth technologies for Health and Exercise Training Guidance. Part One: Physiology and Methods. Arrhythmia & Electrophysiology Review 2018:193-198

Plews D, Hadley D, Christle JW, et al. Heart Rate Variability: An Old Metric with New Meaning in the Era of Using mHealth technologies for Health and Exercise Training Guidance. Part Two: Prognosis and Training. Arrhythmia & Electrophysiology Review. 2018;7(4):1

De Couck M, Caers R, Spiegel D, Gidron Y. The Role of the Vagus Nerve in Cancer Prognosis: A Systematic and a Comprehensive Review. Journal of Oncology. 2018;2018(3):1-11

de Bruyne MC, Kors JA, Hoes AW, et al. Both decreased and increased heart rate variability on the standard 10-second electrocardiogram predict cardiac mortality in the elderly: the Rotterdam Study. American Journal of Epidemiology. 1999;150:1282–8

Hillebrand S, Gast KB, de Mutsert R et al. Heart rate variability and first cardiovascular event in populations without known cardiovascular disease: meta-analysis and dose-response meta-regression. Europace. 2013;15:742–9

Guo Y, Koshy S, Hui D, et al. Prognostic Value of Heart Rate Variability in Patients With Cancer. Journal of Clinical Neurophysiology. 2015;32(6):516-520

04 Comments

Muito bem Daniel, gostei muito de ler este artigo, muito organizado e bem explicado. Fico contente de saber que já andas por cá depois de tanto tempo fora. Um Abraço

Obrigado amigo Carlos! Um grande abraço.

Parabéns pelas suas abordagens. Gostaria de saber se recomenda LDN para redução da ansiedade e também como preventivo de outras doenças. Muito obrigado

Obrigado Mário. Nunca recomendei a LDN para a redução da ansiedade ou depressão, mas sei que também é utilizada para esse fim. Costumo recomendar para as doenças autoimunes.

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